sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Sobre a Teologia - Max Horkheimer

 "A teologia significa aqui a consciência de que o mundo é um fenômeno, de que não é a verdade absoluta nem a última. A teologia é a esperança de que a injustiça que caracteriza o mundo não pode permanecer assim, que o injusto não pode ser visto como a última palavra".
Max Horkheimer

Rilke

Primeira Elegia

Quem, se eu gritasse, entre as legiões dos Anjos me ouviria?
E mesmo que um deles me tomasse inesperadamente em seu
coração, aniquilar-me-ia sua existência demasiado forte.
Pois que é Belo senão o grau do Terrível que ainda
suportamos que admiramos porque, impassível, desdenha
destruir-nos? Todo Anjo é terrível. E eu me contenho, pois,
e reprimo apelo do meu soluço obscuro. Ai, quem nos
poderia valer? Nem Anjos, nem homens e o intuitivo animal
logo adverte que para nós não há amparo neste mundo
definido. Resta-nos, quem sabe, a árvore de alguma colina,
que podemos rever cada dia; resta-nos a rua de ontem e o
apego cotidiano de algum hábito que se afeiçoou nós e
permaneceu. a noite, a noite, quando o vento pleno dos
espaços do mundo desgasta-nos a face — a quem se furtaria
ela, a desejada, ternamente enganosa, sobressalto para o
coração solitário? Será mais leve para os que se amam? Ai,
apenas ocultam eles, um ao outro, seu destino. Não o sabias?
Arroja o vácuo aprisionado em teus braços para os espaços
que respiramos — talvez os pássaros sentirão o ar mais
dilatado, num vôo mais comovido.

De Mário Quintana

Se eu fosse um padre, eu, nos meus sermões,
não falaria em Deus nem no Pecado
— muito menos no Anjo Rebelado
e os encantos das suas seduções,

não citaria santos e profetas:
nada das suas celestiais promessas
ou das suas terríveis maldições...
Se eu fosse um padre eu citaria os poetas,

Rezaria seus versos, os mais belos,
desses que desde a infância me embalaram
e quem me dera que alguns fossem meus!

Porque a poesia purifica a alma
...e um belo poema — ainda que de Deus se aparte —
um belo poema sempre leva a Deus!

Das que não entraram...


Link de nosso espetáculo completo: O Avesso do Claustro

https://vimeo.com/175852211

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Teologia de Eduardo Galeano

Teologia/1

O catecismo me ensinou, na infância, a fazer o bem por interesse e não fazer o mal por medo. Deus me oferecia castigos e recompensas, me ameaçava com o inferno e me prometia o céu; e eu temia e acreditava.
Passaram-se os anos. Eu já não temo nem creio. E, em todo caso – penso – se mereço ser assado cozido no caldeirão do inferno, condenado ao fogo lento e eterno, que assim seja. Assim me salvarei do purgatório, que está cheio de horríveis turistas da classe média; e no final das contas, se fará justiça.
Sinceramente: merecer, mereço. Nunca matei ninguém, é verdade, mas por falta de coragem ou de tempo, e não por falta de querer. Não vou à missa aos domingos, nem nos dias de guarda. Cobicei quase todas as mulheres de meus próximos, exceto as feias, e assim violei, pelo menos em intenção, a propriedade privada que Deus pessoalmente sacramentou nas tábuas de Moisés: Não cobiçarás a mulher de teu próximo nem seu touro, nem seu asno... E como se fosse pouco, com premeditação e deslealdade cometi o ato do amor sem o nobre propósito de reproduzir a mão-de-obra. Sei muito bem que o pecado carnal não é bem visto no céu; mas desconfio que Deus condena o que ignora. 

Teologia/2

O deus dos cristãos, Deus da minha infância, não faz amor. Talvez o único deus que nunca fez amor, entre todos os deuses de todas as religiões da história humana. Cada vez que penso nisso, sinto pena dele. E então o perdôo por ter sido meu super-pai castigador, chefe de polícia do universo, e penso afinal que Deus também foi meu amigo naqueles velhos tempos, quando eu acreditava Nele e acreditava que Ele acreditava em mim. Então preparo a orelha, na hora dos rumores mágicos, entre o pôr-do-sol e o nascer e subir da noite, e acho que escuto suas melancólicas confidências.

Teologia/3

Errata: onde o Antigo Testamento diz o que diz, deve dizer aquilo que provavelmente seu principal protagonista me confessou:
Pena que Adão fosse tão burro. Pena que Eva fosse tão surda. E pena que eu não soube me fazer entender. Adão e Eva eram os primeiros seres humanos que nasciam da minha mão, e reconheço que tinham certos defeitos de estrutura, construção e acabamento. Eles não estavam preparados para escutar, nem para pensar. E eu... bem, eu talvez não estivesse preparado para falar. Antes de Adão e Eva, nunca tinha falado com ninguém. Eu tinha pronunciado belas frases, como “Faça-se a luz”, mas sempre na solidão. E foi assim que, naquela tarde, quando encontrei Adão e Eva na hora da brisa, não fui muito eloqüente. Não tinha prática.
A primeira coisa que senti foi assombro. Eles acabavam de roubar a fruta da árvore proibida, no centro do Paraíso. Adão tinha posto cara de general que acaba de entregar a espada e Eva olhava para o chão, como se contasse formigas. Mas os dois estavam incrivelmente jovens e belos e radiantes. Me surpreenderam. Eu os tinha feito; mas não sabia que o barro podia ser tão luminoso.
Depois, reconheço, senti inveja. Como ninguém pode me dar ordens, ignoro a dignidade da desobediência. Tampouco posso conhecer a ousadia do amor, que exige dois. Em em homenagem ao princípio de autoridade, contive a vontade de cumprimentá-los por terem-se feito subitamente sábios em paixões humanas.
Então, vieram os equívocos. Eles entenderam queda onde falei vôo. Acharam que um pecado merece castigo se for original. Eu disse que quem desama peca: entenderam que quem ama peca. Onde anunciei pradaria em festa, entenderam vale de lágrimas. Eu disse que a dor era o sal que dava gosto à aventura humana: entenderam que eu os estava condenando, ao outorgar-lhes a glória de serem mortais e loucos. Entenderam tudo ao contrário. E acreditaram.
Ultimamente ando com problemas de insônia. Há alguns milênios custo a dormir. E gosto de dormir, gosto muito, porque quando durmo, sonho. Então me transformo em amante ou amanta, me queimo no fogo fugaz dos amores de passagem, sou palhaço, pescador de alto mar ou cigana adivinhadora da sorte; da árvore proibida devoro até as folhas e bebo e danço até rodar pelo chão...
Quando acordo, estou sozinho. Não tenho com quem brincar, porque os anjos me levam tão a sério, nem tenho a quem desejar. Estou condenado a me desejar. De estrela em estrela ando vagando, aborrecendo-me no universo vazio. Sinto-me muito cansado, me sinto muito sozinho. Eu estou sozinho, eu sou sozinho, sozinho pelo resto da eternidade. p.

(O Livro dos Abraços)

Encontros com Frei Betto e Leonardo Boff






quarta-feira, 4 de maio de 2016

Dois Poemas de Artur Mattar inspirados em nossos ensaios


Carta Aos Socialistas Remanescentes
Aos socialistas remanescentes
venho por essa carta
implorar que repartam
vossa esperança decadente
Sejam mais faméricos poetas!
Declamem Nerudas de amor
e voltem a sentir a dor
dos ladrões de bicicleta
Mastiguem os comedores das voadoras Perdizes
cantem salmodiando a voz dos poetas
que vibram a fome da terra e os gritos do povo
e deixem de olhar a crise
com um catastrofismo esteta
É preciso lirismo para falar da sede!
Lembrem do messianismo latino da voz de Mercedes
e saibam que só assim se distribui a esperança e a alegria
fundamentos da luta por utopia
Ainda não viram?
Não dá certo a demagogia!
se disse o poeta:
"primeiro o pão depois a poesia˜
saibam que só te atravessa essa reta
por que é lirismo e não monotonia
E se o mundo anda sem metáfora
virem a esquerda dele!
Esse é o caminho da diáspora
o ponto fora da curva,
do velho coração que urra
e que se amassa
nos gritos da bizzarria!
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Todo o sangue é vermelho.
Olhai o pobre, olhai o rico,
jovem, se inspirai nos Beatles,
assim não serão ateus...
Jovem, se inspirai nos riscos,
e se inspirará, tu e os teus,
em consequência no Cristo
[os Beatles falam de Deus]
Câmara visionária
de vida silenciada
semeai as bocas miúdas
que não tem miúdos
para ser boca bastada
Dai todo o peixe as ovelhas
dai o dendê as moquecas
serve à coxia do mundo
o grão de alma indiscreta
É semente, arcebispo folião...
No silêncio de sua vigília
Virgílio à Beatriz dá a mão
e te leva para cair na folia
"Acreditai nas esperanças, ó vós que escutais!"
Vêm palavras do bispo vermelho
tintura de todos os meios

corrente dos umbrais.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Sobre Marx e o suspiro da Criatura Oprimida

KARL MARX: «A RELIGIÃO É O ÓPIO DO POVO»



"O fundamento da crítica irreligiosa é: o homem cria religião; não é a religião que cria homem. E religião é, bem entendido, autoconsciência e o auto-sentimento do homem que ainda não é senhor de si mesmo ou que já voltou perder-se (. ..) Areligião é o soluço (o suspiro) da criatura oprimida, coração de um mundo sem coração, espírito de um estado de coisas carente de espírito. religião é o ópio do povo. abolição da religião enquanto felicidade ilusória do povo é uma exigência quefelicidade real formula. Exigir que renuncie às ilusões acerca da sua situação éexigir que renuncie uma situação que precisa de ilusões. crítica da religião é pois,em germe, crítica deste vale de lágrimas de que religião é a auréola
Marx considera que a religião é uma forma de alienação. Nela verifica-se a fractura entre o mundo concreto e um mundo ideal, entre o mundo em que o homem vive e o mundo em que ele desejaria viver. Por que razão surge esse mundo ideal? Marx diz que o mundo celeste é o resultado de um protesto da criatura oprimida contra o mundo em que vive e sofre. Ou seja, procura-se um refúgio no mundo divino porque o mundo em que o homem vive é desumano. Num mundo em que "o homem é o lobo do homem", não há "família humana", o homem não se sente neste mundo como em sua casa.
A procura de uma família celeste deve-se à perda da família terrestre, à separação do
homem do seu semelhante. São essencialmente as degradantes condições materiais de vida, a exploração do homem pelo homem, com o consequente desprezo pela vida humana, que levam o homem a sentir-se órfão na terra e a procurar um pai no céu.
O mundo religioso, o "Reino de Deus", não tem consistência própria, não é verdadeiramente real. É um "reflexo" de degradantes condições materiais de vida, da opressão da grande maioria dos homens por outros. É a "flor imaginária" que decora os grilhões que oprimem os explorados; é o "suspiro" de quem se vê degradado na sua humanidade, transformado em objecto e máquina produtiva que quanto mais enriquece os exploradores mais se empobrece a si mesmo. Segundo Marx, da religião o homem não pode esperar a sua libertação e emancipação. Ela é um "sintoma" da desumanidade do mundo dos homens e não o remédio para esse mal. Mais do que isso, ela é um "ópio", um produto tóxico, que entorpece, aliena e enfraquece  porque a esperança de consolação e de prometida justiça no "outro mundo" transforma o explorado e oprimido num ser resignado, tende a afastá-lo da luta contra as causas reais do seu sofrimento.
Marx sempre considerou a religião como uma super - estrutura, i. e., uma dimensão que reflecte e é condicionada pela infra-estrutura de uma determinada sociedade, ou seja, pelo modo como se verificam as relações entre os homens no processo económico ou produtivo.
Nesse processo produtivo há uma classe dominante: aquela que detém a propriedade privada dos meios de produção (instrumentos, máquinas, fábricas, etc.) e que por isso submete ao seu poder aqueles que não podendo produzir por si mesmos a sua subsistência têm de vender a sua força de trabalho. A exploração do homem pelo homem tem a sua raiz no facto de a propriedade dos meios que permitem produzir e assegurar a subsistência ser privada e não social, i. e., de alguns e não de todos. Ora, segundo Marx, as ideias dominantes (religiosas, filosóficas, morais, etc.) são o reflexo ou, pelo menos, são condicionadas pelos interesses económicos da classe materialmente dominante. Assim, a religião é um instrumento que, apesar de apelar à benevolência dos poderosos, ao apresentar o Céu como lugar da justiça e da compensação, justifica o estado de coisas existentes, o domínio de uma classe sobre outra. A ilusão de um mundo transcendente e justo serve para que as injustiças se perpetuem na sociedade humana. Por isso, segundo Marx, não basta criticar a religião: é preciso não só criticar a raiz material (a alienação do trabalho, a exploração económica) da alienação religiosa, como também eliminar revolucionariamente as condições de miséria terrestre das quais deriva a necessidade do "mundo celeste".
Atacar directamente a miséria terrestre (a alienação económica) é destruir indirectamente a necessidade do mundo celeste.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Romaria de Drummond

Os romeiros sobem a ladeira
cheia de espinhos, cheia de pedras,
sobem a ladeira que leva a Deus
e vão deixando culpas no caminho.

Os sinos tocam, chamam os romeiros:
Vinde lavar os vossos pecados
Já estamos puros, sino, obrigados,
mas trazemos flores, prendas e rezas.

No alto do morro chega a procissão.
Um leproso de opa empunha o estandarte.
as coxas das romeiras brincam no vento.
Os homens cantam, cantam sem parar.

Jesus no lenho expira magoado.
Faz tanto calor, há tanto algazarra.
Nos olhos do santo há sangue que escorre.
Ninguém não percebe, o dia é de festa.

No adro da igreja há pinga, café,
imagens, fenômenos, baralhos, cigarros
e um sol imenso que lambuza de ouro
o pó das feridas e o pó das muletas.

Meu Bom Jesus que tudo podeis,
humildemente te peço uma graça.
Sarai-me, Senhor, e não desta lepra,
do amor que eu tenho e que ninguém me tem.

Senhor, meu amo, dai-me dinheiro,
muito dinheiro para eu comprar
aquilo que é caro mas é gostoso
e na minha terra ninguém não pissui.

Jesus meu Deus pregado na cruz,
me dá coragem pra eu matar
um que me amola de dia e de noite
e diz gracinhas a minha mulher.

Jesus Jesus piedade de mim.
Ladrão eu sou mas não sou ruim não.
Por que me perseguem não posso dizer.
Não quero ser preso, Jesus ó meu santo.

Os romeiros pedem com os olhos,
pedem com a boca, pedem com as mãos.
Jesus já cansado de tanto pedido
dorme sonhando com outra humanidade.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Poema de Frei Tito

Quando secar o rio da minha infância

Quando secar o rio de minha infância,
secará toda dor.
Quando os regatos límpidos de meu ser secarem, minh’alma perderá sua força.
Buscarei, então, pastagens distantes
Irei onde o ódio não tem teto para repousar.
Ali, erguerei uma tenda junto aos bosques.
Todas as tardes me deitarei na relva,
e nos dias silenciosos farei minha oração:
Meu eterno canto de amor: expressão pura de minha mais profunda angústia
Nos dias primaveris, colherei flores para
meu jardim da saudade.
Assim, exterminarei a lembrança de um passado sombrio.
Tito de Alencar
Paris, 12 de outubro de 1973